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Caminhos da lama: denúncia dos atingidos

Peregrinação percorre o rio Paraopeba ao São Francisco nos dias que se seguiram ao crime da Vale em Brumadinho. A ação foi realizada por agentes da Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais, da Comissão Pastoral da Terra, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras do Brasil e do Conselho Pastoral dos Pescadores.

Rio Paraopeba no Acampamento Pátria Livre, em Pará de Minas

A “Peregrinação Paraopeba/ São Francisco: rastros de um crime” começou suas articulações preparatórias ainda em 28 de janeiro – três dias após o crime. No dia 31, em Brumadinho, o grupo pode constatar os primeiros efeitos da tragédia. Na sequência, visitou o Acampamento Pátria Livre, do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), em Pará de Minas. Próximo dali, também teve contato com os índios Pataxós, que dependem totalmente do Paraopeba, naquela altura já contaminado pela lama. No mesmo dia, o grupo conseguiu contato com moradores de Pará de Minas, São José da Varginha, Florestal e Juatuba.

No segundo dia de peregrinação, realizado em 1º de janeiro, o coletivo visitou o curso do Paraopeba na região rural de Juatuba e Curvelo. Em seguida, visitou a Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, que fica no limite dos municípios de Curvelo, Pompéu e Felixlândia. É lá que duas turbinas foram desligadas para que haja contenção dos rejeitos, a fim de evitar que eles cheguem ao rio São Francisco.

Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, no limite dos municípios de Curvelo, Pompéu e Felixlândia.

Os funcionários da Usina não acreditam nessa hipótese, mas o temor já é uma certeza entre moradores e trabalhadores que vivem próximos ao rio. Para eles, a contaminação já chegou, embora ainda não seja percebida a olho nu. Além disso, o coletivo constatou a presença de empresas à serviço da Vale no monitoramento das águas. A ação foi divulgada pela empresa, mas os peregrinos perceberam que isso tem ajudado a sedimentar no povo a crença de que a contaminação possa ser retida. Para os integrantes da Peregrinação, há um efeito de imagem que corre o risco de ludibriar as populações quanto à real contaminação que os rejeitos podem trazer.

No dia 2 de janeiro, em Felixlândia, o grupo conversou com lideranças da Igreja, incluindo o diácono Valdivino Batista da Silva, que apresentou os peregrinos a pescadores locais. O religioso defendeu que a Igreja abrace a luta em defesa do povo que depende do rio. No dia 3 de janeiro, a peregrinação esteve em Porto Novo, distrito de Três Marias, além da sede do município. Às margens do rio São Francisco, o grupo avaliou parte da experiência e rezou, encerrando essa parte da caminhada.

No dia 4 de janeiro, em Brumadinho, a Peregrinação fez nova visita. Na cidade, assessores da Cáritas Regional Minas Gerais permanecem em contato com a população desde a data do crime.

Mística e missão

Rio São Francisco, em Três Marias.

Ao som de “Meu Rio de São Francisco”, de D. Frei Luiz Cappio e Roberto Malvezzi, a Peregrinação rezou pelas vítimas e pelas águas ao fim do caminho do Paraopeba até a foz, no Velho Chico. Irmã Neusa destacou a mística dessa missão e reafirmou que o compromisso do grupo é estruturada na esperança no Deus da vida.

“Peregrinar de Brumadinho, atravessando o ‘vale de dejetos’ do crime da mineradora Vale rumo ao Velho Chico está sendo a ‘Via Crucis’ mais dolorida e mais desafiadora para uma fé cristã. Um crime nesta dimensão mexe com as entranhas de nossa fé, numa mistura de dor, indignação, solidariedade com as tantas vítimas… mas, também, impulsiona-nos a gritar por justiça com nosso comportamento, com nossos atos concretos e não só com a voz. É contemplar Cristo crucificado em rostos humanos, mas também nas águas, na terra, nos animais, plantas e nas vidas de uma biodiversidade imensa afogada na lama tóxica!”, refletiu.

Por Vinícius Borges, comunicador popular da Peregrinação Paraopeba/ São Francisco: rastros de um crime.

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