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Cuidar em liberdade

Belo Horizonte comemora 25 anos da inauguração do seu primeiro CERSAM, marco na implementação da política de Saúde Mental na cidade.

A rede de Saúde Metal de Belo Horizonte está em festa. É que o CERSAM Barreiro (Centro de Referência em Saúde Mental) completa 25 anos de atendimento às pessoas em sofrimento mental. Primeiro serviço da rede a ser inaugurado na capital, a comemoração também marca os 25 anos de implementação da política de Saúde Mental na cidade.

Para celebrar e avaliar o momento atual dessa política, foi realizado um seminário, no dia 12 de junho, na PUC-Barreiro, em Belo Horizonte. A atividade contou com a presença de usuários, familiares e trabalhadores da rede, bem como de integrantes do Fórum Mineiro de Saúde Mental, agentes da Cáritas Regional Minas Gerais, a coordenação da Saúde Mental, entre outros parceiros e simpatizantes.  

Durante o seminário, o psiquiatra e coordenador de Saúde Mental de Belo Horizonte, Fernando Siqueira, alertou sobre as ameaças que o SUS (Sistema Único de Saúde) e a política de Saúde Mental vem sofrendo devido ao crescimento do neoliberalismo. “A Saúde Mental, a luta antimanicomial e a reforma psiquiátrica, por serem políticas em que temos usuários mais fragilizados, correm um risco”, afirmou.

Siqueira chamou atenção para a importância de se resistir a essas ameaças: “o momento é de resistir ao esfacelamento, tanto das conquistas obtidas no fechamento dos manicômios, no tratamento em liberdade e humanizado, quanto de não retornar a tratamentos que são excludentes e que diferenciam sujeitos loucos dos não loucos”.

Para a terapeuta ocupacional, que foi a primeira gerente do CERSAM Barreiro, Nina Soalheiro, a violência psiquiátrica, atualmente, está localizada na epidemia de diagnósticos e síndromes criadas em conluio com a indústria farmacêutica. Durante a mesa de abertura do seminário, ela denunciou as graves consequências da medicalização infantil e das pesquisas que abafam os verdadeiros efeitos colaterais das medicações. Soalheiro ainda fez um apelo aos participantes para não se conformarem com seus sofrimentos. “Nós nos conformamos muito com o mais ou menos. Vamos retomar uma dimensão da cura enquanto metáfora para a esperança”, concluiu.

Usuária do CERSAM Barreiro, Aline Ribeiro contou que o serviço foi fundamental para o seu tratamento. “O CERSAM para mim é uma grande família, que trabalha pela melhora de seus pacientes”, disse. Aline lembrou que foi acolhida, cuidada e fez amigos no serviço. “Hoje tenho uma vida normal, trabalho, estudo e sou independente”, relatou ela.

A razão se equivocou

A derrubada dos muros manicomiais só foi possível com uma ação política, explicou a psiquiatra e integrante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, Miriam Abou-yd. Durante a mesa de abertura do Seminário, Miriam lembrou que essa ação teve início no fim da década de 70, com a visita à Belo Horizonte do psiquiatra italiano Franco Basaglia, importante liderança nas transformações do sistema de saúde psiquiátrico no Brasil e na Itália.

A visita de Basaglia provocou em um grupo de profissionais que trabalhavam com Saúde Mental a necessidade de se organizar e realizar uma vistoria nos hospitais psiquiátricos da cidade, em 1991. Abou-yd lembra que, na época, existiam 2.100 leitos psiquiátricos, além de alguns centros de saúde com profissionais que trabalhavam numa lógica preventivista. Os hospitais psiquiátricos apresentavam características arquitetônicas de prisões, como muros, grades e controle da entrada e saída de pessoas.

Em 1992, esse grupo realizou uma visita a cidade de Santos, que era referência em Saúde Mental no Brasil. A partir daí, eles se organizaram politicamente para implementar os primeiros serviços de atenção em liberdade às pessoas em sofrimento mental, inaugurando o CERSAM Barreiro e, com ele, a política de Saúde Mental em Belo Horizonte. “Tínhamos visto a situação dos hospitais, conhecíamos o tratamento em liberdade e decidimos dizer chega!”, enfatiza Abou-yd.   

A abertura dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que em Belo Horizonte são chamados de CERSAM, veio romper com a lógica de aprisionamento dos hospitais psiquiátricos, fundando uma nova forma de cuidar em liberdade, através da convivência, do exercício de solidariedade e do fortalecimento dos laços entre loucos e não loucos. “A razão se equivocou. O louco não precisa se tornar um homem de razão para usufruir da cidadania e decidir por si o seu querer”, afirma Miriam.

A Cáritas MG e a Saúde Mental

A Cáritas Regional Minas Gerais faz parte da construção da política de Saúde Mental desde o início de sua história. Há 25 anos, a Cáritas MG executa o Programa Arte da Saúde – Ateliê de Cidadania, através de convênio com a secretaria municipal de Saúde de Belo Horizonte. O programa consiste na oferta de núcleos de oficinas para crianças e adolescentes que são encaminhadas a escolas especiais ou a tratamentos psiquiátricos. Realizado nas nove regionais da cidade, o Arte da Saúde visa interromper o processo de segregação dessas crianças e adolescentes que não se enquadram nos padrões de “normalidade”, buscando desenvolver suas potencialidades através da arte.

O Serviço Residencial Terapêutico é outro programa da política de Saúde Mental executado pela Cáritas Minas, através de convênio com a secretaria municipal de Saúde. Atualmente, a Cáritas acompanha e administra 10 casas para a moradia de pessoas com longos períodos de internação psiquiátrica, que perderam seus vínculos sociais e familiares. Os moradores das residências terapêuticas são acompanhados pela equipe multidisciplinar dos CERSAMs, Centros de Saúde, Centros de Convivência e toda a rede de atenção psicossocial.

Diante do reconhecimento da ausência do poder público na atenção aos usuários de álcool e outras drogas em situação de maior vulnerabilidade, a Cáritas MG tem atuado com a estratégia da redução de danos junto a esse público, desde 2011. Através de convênio com a secretaria municipal de Saúde, dois agentes Cáritas redutores de dano compõem as equipes dos Consultórios de Rua, dos CERSAM ADs (Centro de Referência em Saúde Mental para usuários de álcool e outras drogas) e das Unidades de Acolhimento Adulto e Infanto-Juvenil, serviços que integram a rede de Saúde Mental de Belo Horizonte.

A assessora técnica da Cáritas Minas, Elisângela Arraes, defende a importância da sustentação da política de Saúde Mental e destaca a contribuição da Cáritas Minas nesse processo. “A Cáritas intervém na ação para fazer caber as diferenças no laço social e para uma sociedade do Bem Viver, dispensando assim as grades e manicômios, pois a vida é em liberdade”, explica.

Fotos: Fernanda Abdo, pelo CERSAM Barreiro

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