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Marias de Minas em Luta

 

Centenas de mulheres de Ouro Preto e Mariana ergueram suas vozes no Dia Internacional das Mulheres contra o feminicídio, contra a reforma da previdência e por um novo modelo de mineração, em um ato público nas ruas de Ouro Preto.

Um dia passou por aqui uma mulher forte e corajosa/ Incitando as manas a viver melhor […]/ Ela só queria que a liberdade fosse da mulher também/  Mas um dia irmãs e irmãos/ Igual a Roseli, Margarida e Lampião/ A moça teve seu destino mudado / Pelo poder desgraçado de uma articulação/ […] Foi um tiroteio danado até o sol raiar/ Quando os milicianos já cansados de tanto atirar/ Parou pra ver Mariele que não parava de sonhar.
Poema: Ela não para de sonhar.
Adaptação: Lindalva Santana, equipe da Cáritas no Cadastro dos atingidos pela Barragem de Fundão.

No Dia Internacional das Mulheres – 8 de Março, centenas de mulheres de Ouro Preto e Mariana ergueram suas vozes contra o feminicídio, contra a reforma da previdência e por um novo modelo de mineração. Mulheres de fibra, como Marielle Franco, foram lembradas e homenageadas. “Marias das Minas em Luta” foi uma manifestação construída por diversos coletivos feministas, organizações sociais, instituições e mulheres que não fazem parte de nenhum movimento, mas acreditam na luta feminista. O ato foi unificado, como já acontece há alguns anos na região. As manifestantes se reuniram às 16h30 na praça Tiradentes e seguiram em marcha, passando pelo Fórum, pela Casa dos Contos e, às 20h30, encerraram o ato em frente à Prefeitura Municipal de Ouro Preto.

Vivendo o contexto de um crime socioambiental de enormes dimensões, as mulheres atingidas pela Barragem de Fundão trouxeram falas fortes e sofridas, expressões de dor e de luta. “Esse é um momento que nós temos para convidar as pessoas para se juntar a nós”, comenta Mirella Lino, da comunidade de Ponte do Gama, que faz ouvir o clamor das famílias atingidas da zona rural de Mariana. “O crime não atingiu apenas Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, têm mais seis comunidades além dessas. São três anos de impunidade, três anos que nós lutamos e conquistamos muitos direitos, mas também são três anos que passamos adoecendo, tristes, em sofrimento inexplicável. São três anos de luta”, afirma Mirella.

O atual modelo de mineração que que se baseia em um discurso de desenvolvimento, visa o lucro de poucos em detrimento da vida de muitos. “Não são 19 pessoas que morreram com o crime da Samarco, Vale e BHP. Na nossa conta de atingidos, nos territórios já são 58 mortes. A mídia não conta, mas nós vamos dizer”, afirma Simone Silva, moradora de Barra Longa.

No modelo de mineração primário exportador, a riqueza é extraída das montanhas, mas a população local continua pobre, cada vez mais adoecida, com as águas e o ar contaminados. A mineração realizada hoje no Brasil e no mundo é insustentável. Resulta em crimes socioambientais nas proporções dos que ocorreram em Mariana e em Brumadinho. Simone vive na pele o descaso das empresas criminosas: “simplesmente para eles aconteceu um crime e acabou, mas pra mim não, eu tenho dois filhos contaminados pelos metais pesados da Samarco, Vale e BHP. Um filho de 16 e a Sofia de 4 anos. São 3 anos e 4 meses lutando para ser reconhecida, para receber o cartão emergencial que era para ter sido entregue em 2015, mas isso a mídia não vai dizer”.

Segundo a coordenadora da Assessoria Técnica da Cáritas Regional Minas Gerais aos atingidos de Mariana, Ana Paula Alves, é fundamental estar na luta coletiva das mulheres. “Nós da Cáritas estamos aqui nessa luta ao lado das atingidas pelo rompimento da barragem. Estamos aqui fortalecendo a luta das atingidas que são as protagonistas, as lutadoras que vão mudar essa realidade. É importante as mulheres estarem unidas contra um modelo de mineração, para construir a nossa sociedade, contra esse governo machista, misógino, contra essa mineração que mata. É pela vida das mulheres que estamos aqui, é por uma sociedade justa e igualitária”, afirma Ana Paula.  

Machismo e racismo

Além da condição de atingidas, a realidade destas mulheres se mostra ainda mais dura em função do racismo estrutural na sociedade brasileira. “Ser mulher nessa luta é bastante difícil, primeiro porque a gente já vem de um histórico de vulnerabilidade, então a nossa fala não tem muita atenção. Por eu ser uma mulher negra e jovem, as pessoas não acham que eu seja uma pessoa de fato”, desabafa Mirella Lino.

Ao microfone, em plena Praça Tiradentes, Simone Silva relata o racismo sofrido, mas se espelha nos exemplos de mulheres fortes presentes na Bíblia Sagrada: “Não sou aceita por muitos porque sou negra do alto do morro, mas na palavra da Bíblia está escrito… Imagine se Débora, quando recebeu a tarefa de defender o seu povo tivesse desistido, tivesse se acovardado. Ester também. Então eu quero convidar as companheiras: não tenham medo! Seja qual for o gigante à nossa frente, nós vamos derrubar, nós somos pequenas sim, mas juntas nós somos Davi, que mesmo pequenininho derrubou o gigante. Que a partir de hoje nós sejamos Ester, Débora e Miriã, que não tenhamos medo”.

O tratamento destinado às atingidas pela Fundação Renova foi alvo de críticas durante o ato do Dia Internacional das Mulheres. “Eu sofro preconceito na atenção da Fundação, que foi criada para reparar mas só renova o crime, por sustentar uma pele negra, por ser uma mulher e, mais ainda, por ser uma jovem mulher negra. São três condições que invisibilizam a pessoa”, afirma Mirella.

“Só eu e minhas companheiras aqui atingidas pela mineração é que sabemos. Nós enterramos os nossos mortos, para nós só sobra o luto, mas não temos tempo de chorar pelos nossos mortos, porque temos que fazer do luto, a luta! Que nenhuma mulher se cale diante de nenhum opressor!” grita Simone, que encerra sua fala com as palavras de ordem: “Águas para a vida, não para a morte!”

Pela vida das mulheres

Só em janeiro deste ano já foram registrados mais de 100 casos de feminicídios no Brasil. Trata-se da expressão fatal da violência contra a mulher. O ódio e a criminalização dos corpos das mulheres mata uma mulher a cada uma hora e meia. A questão racial mais uma vez deve ser observada. Nos últimos 10 anos, o número de feminicídios a mulheres brancas caiu 9,8%, enquanto o crime praticado contra mulheres negras cresceu 54%, segundo os dados do Mapa da Violência de 2015.

Outra frente de batalha é contra a “Reforma da Previdência”, que ataca a vida das mulheres. Para receber o valor integral de sua aposentadoria nos termos da PEC 6/2019, a trabalhadora deve ter no mínimo 62 anos de idade e 40 anos de contribuição. “Enquanto tentam nos massacrar, nós nos fortalecemos e seremos só resistência, só resistência! Não vamos permitir que depois de tanta luta nossos direitos sejam retirados na calada da madrugada […]. Neste 8 de Março não temos nada para comemorar, é dia de luta! No mundo todo”, diz Aida Anacleto, ativista e membro da Pastoral Afro-Brasileira.   

Por Ellen Barros, comunicadora popular da Cáritas Regional Minas Gerais em Mariana.

 

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