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O crime se renova

O rejeito tóxico da Samarco, Vale e BHP segue devastando vidas e comunidades inteiras desde o dia 05 de novembro de 2015. Na ausência da reparação integral, o crime se renova cotidianamente.

Em cinco anos, o maior crime socioambiental do país envolvendo barragens da mineração deixa um rastro de adoecimento, inseguranças, violações de direitos e desrespeito às vítimas. O mar de lama daquele 05 de novembro de 2015 continha 43,8 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério. O rompimento da barragem de Fundão, das empresas Samarco, Vale e BHP, assassinou 19 pessoas, deixando pelo menos 1,9 milhão de pessoas atingidas ao longo da bacia do rio Doce, de Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo. Infelizmente não é um caso isolado, trata-se de um modelo de mineração predatório que permite a continuidade do crime, como a reincidência da mineradora Vale com o rompimento da barragem em Brumadinho, que assassinou 272 pessoas.

Expedito Silva (Caé) nas ruínas de Bento Rodrigues, em Mariana, 2018.

O rejeito tóxico gera impactos profundos no ecossistema atingido, contaminando água, terra, plantas, animais e o ar. No Estudo de Avaliação de Risco à Saúde Humana, realizado pela empresa Ambios Engenharia e Processos (2019), foram identificados cádmio, zinco, cobre e níquel na poeira coletada nas casas de pessoas atingidas. Em amostras de solo superficial, foi encontrado cádmio, um metal cancerígeno, em concentrações 17 vezes maiores que os valores de referência. A exposição aos metais pesados presentes na poeira pode causar problemas respiratórios e dermatológicos que se manifestam nas pessoas por meio de sintomas semelhantes aos que já vêm sendo relatados pelos atingidos: coceira e vermelhidão na pele, irritação, tosse, congestão nasal, entre outros.

Além das doenças do corpo, o crime tem adoecido a mente de muitos atingidos. O relatório sobre saúde mental contratado pela Cáritas Minas Gerais, que é a Assessoria Técnica das pessoas atingidas em Mariana, e realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) demonstra que há um alto índice de jovens e adultos com depressão no município. “A depressão é real. Você começa a conversar com a pessoa, daí a pouco a pessoa está chorando e começa a contar o caso, a relembrar o passado e vem aquela angústia, aquela choradeira aquela coisa ruim por dentro. É real, muitas das vezes que a gente conversa com o atingido”, relata Expedito Silva, o Caé, morador de Bento Rodrigues.

 Os entraves criados para o processo de reparação dos demais danos só agrava o quadro de adoecimento das pessoas atingidas. Os sucessivos atrasos na entrega dos reassentamento é um dos problemas que mais causa angústia na população atingida. Para Mônica Santos, moradora de Bento Rodrigues o atual prazo para finalização dos reassentamentos, dia 27 de fevereiro de 2021, também não será cumprido. “As empresas até vão colocar a culpa na pandemia, o que não é verdade. Sendo que em dois anos ela [a Renova] conseguiu fazer duas casas no reassentamento de Bento, imagine quando ela vai terminar as outras duzentas e poucas casas”*, indigna-se a atingida.

O processo de indenização também viola ainda mais os direitos das pessoas atingidas. Mônica denuncia que quem determina quais danos serão pagos e os valores para a indenização é a Fundação Renova: “É o mesmo que eu matar alguém e eu mesmo estipular a pena que devo pagar. Claro, eu não vou estipular pena alta, ou quase nenhuma, se possível, né? É o que as empresas vêm fazendo a todo momento”.

Luzia Queiroz, da Comissão dos Atingidos pela Barragem de Fundão – Mariana (CABF), e Guilherme de Sá Meneghin, promotor do MPMG, no ato de protocolar a Matriz de Danos, em 13 de agosto de 2020.

Na busca por assegurar valores justos de indenização, atingidas e atingidos de Mariana construíram, junto à Cáritas MG, uma Matriz de Danos. Trata-se uma ferramenta para calcular as indenizações, feita em parceria com pesquisadores da UFMG, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Agroequilibra Ltda. Luzia Queiroz, atingida de Paracatu de Baixo aconselha: “Digo para todos os atingidos: peguem essa Matriz e exijam o preço real porque é o que vale, a gente não tem que viver de migalhas nem de esmolas”.

Texto e fotos por Ellen Barros, comunicadora popular da Cáritas Minas Gerais em Mariana.

* Trecho de entrevista realizada pela Cáritas MG em parceria com a Conectas Direitos Humanos e o Centro de Informação sobre Empresa e Direitos Humanos. Para íntegra, acesse AQUI

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