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Ocupação chega ao fim de forma vitoriosa

Uma das mais extensas manifestações realizadas pelos atingidos pelo crime da Vale, BHP Billiton e Samarco, na bacia do Rio Doce, a ocupação do escritório da Fundação Renova, em Mariana, durou 23 dias.

Na tarde ontem (24), atingidos e atingidas protestaram pelas ruas de Mariana.

Desde o dia 03 de junho atingidos dos municípios de Mariana, Barra Longa e Acaiaca exigem respostas para as 19 pautas apresentadas para a Fundação Renova. Muitas das reivindicações já haviam sido apresentadas meses antes e continuavam sem respostas, entre elas os atrasos nos reassentamentos e a situação dos garimpeiros e pescadores, que perderam seu meio de trabalho e ainda não tiveram reconhecidos seus direitos como atingidos pela barragem de Fundão.

Noêmia Gonçalves Guicciardi, atingida de Felipe dos Santos, distrito de Barra Longa, conta que na região o rompimento da barragem tirou o trabalho de todos os garimpeiros, além disso, ela relata que o tráfego de caminhões da Renova causou trincos nas casas, afetou a rua e os encanamentos da rede de água e esgoto. “Não deveria precisar disso, de a gente vir aqui, mas as pessoas estão passando necessidade. A própria Renova devia enxergar os problemas, mas nós tivemos que vir aqui lutar juntos pelos nossos direitos”, afirma Noêmia.

Thiago Alves, membro da coordenação estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), avalia a manifestação como vitoriosa e destaca a legitimidade da pauta dos garimpeiros. “Um dos pontos principais, que inicia o resto do debate, é o direito ao reconhecimento. A Renova se nega a reconhecer essa população numerosa de homens e mulheres que têm um trabalho informal e precarizado historicamente, mas que é um trabalho com traços de tradicionalidade e que sustenta milhares de pessoas há gerações nessa região, que nasceu do garimpo”, afirma Thiago.

Simone Silva, atingida do município de Barra Longa, destaca o avanço nessa pauta: “Uma grande conquista é que a Renova se recusava a cadastrar os garimpeiros e agora eles vão ser cadastrados, com isso eles vão ser reconhecidos como atingidos. Até então os garimpeiros eram invisibilizados, então essa é uma conquista muito grande”.

Os atingidos contaram, ao longo de todo o protesto, com a assistência oferecida pela Cáritas Minas Gerais, Assessoria Técnica aos atingidos pela barragem de Fundão em Mariana, a ocupação contou, também, com o apoio da Arquidiocese de Mariana, entre outras organizações sociais.

Para Gladston Figueiredo, coordenador operacional da Assessoria Técnica da Cáritas, “quando os atingidos nos demandam apoio numa ação de legítima reivindicação dos seus direitos é nosso papel apoiar, por isso, a Cáritas está ao lado dos atingidos, entendendo, inclusive, que esse cenário é motivado pelos inúmeros atrasos proporcionados pela Fundação Renova”.

Atingidos e atingidas ocuparam as ruas de Mariana.

Em ofício, enviado às 21 horas de ontem (24), a Fundação reafirma que realizará o cadastro, aplicado na bacia do Rio Doce, a partir de agosto de 2019. Afirma, ainda, que fornecerá cestas básicas às famílias em situação de vulnerabilidade, também a partir de agosto. Neste documento constam outras respostas, algumas delas consideradas insatisfatórias, sobre as demais pautas apresentadas.

Conquistas

Atingidos e representantes do MAB avaliam diversas conquistas alcançadas a partir da manifestação. “Essa ocupação já é vitoriosa! Porque ela conseguiu reunir, de maneira organizada, dezenas de trabalhadores que deixaram suas casas, onde iam tentar alguma fonte de renda, para fazer um processo de resistência muito forte contra as maiores mineradoras do planeta”, destaca Thiago Alves, representante do MAB estadual.

Segundo os atingidos, a pressão causada pelo ato fez a Renova se movimentar, inclusive pautando diretamente o presidente da Fundação, que esteve em reunião com os atingidos no dia 13 de junho. Além disso, a cesta básica como forma alternativa de mitigação aos garimpeiros e pescadores ainda não cadastrados, que estão em situação de vulnerabilidade, é uma conquista dessa organização e luta dos atingidos.

Outra vitória foi a determinação da justiça pela liberação do recurso para a conclusão dos trabalhos relativos à Matriz de Danos dos atingidos pela barragem de Fundão em Mariana. “Além de tudo, inspiramos outras centenas de atingidos em toda a bacia do Rio Doce a permanecerem em luta e a fortalecerem o próprio processo organizativo. Isso tudo já é uma grande vitória”, afirma Thiago Alves.

Após as respostas às pautas apresentadas, atingidos e atingidas se organizam, na tarde de hoje, para desocupar o escritório da Fundação Renova em Mariana. A avaliação é de que as conquistas fizeram essa luta valer a pena, mas que o processo de resistência ainda é longo e que ainda há muito pela frente.

Texto: Ellen Barros, comunicadora popular da Cáritas Regional Minas Gerais em Mariana.

Fotos: Heiza Maria Dias, assessora técnica da Aedas

 

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