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Um olhar para o Paraopeba e o pensamento no Velho Chico

“A lama, de fato, não é tão visível nos pontos mais distantes. Mas os moradores das várias cidades são unânimes em dizer que o risco já chegou. Entre a angústia do acompanhamento de resgate, várias cidades têm seus moradores tentando se mobilizar,” descreve Vinícius Borges, comunicador popular que participou da “Peregrinação São Francisco / Paraopeba: rastros de um crime”.

De barco, os peregrinos seguiram para as águas correntes do Rio Paraopeba, na represa em Felixlândia.

“Lá tem cheiro de morte”. A frase do ambientalista, revoltado com um crime sem dimensões, ainda lateja em minha mente. Foi um dos muitos enlutados que encontramos às margens do Rio Paraopeba. Ao testemunhar sua visita a Brumadinho, o homem relatou, em poucas palavras, aquilo que envolve todo o clima de dor que vem navegando pelas águas e ancorando nas memórias.

Nossa caminhada começou no último dia de um janeiro para sempre marcado de modo trágico. Um crime que se repetiu. Não foi por falta de aviso. O Rio Doce, que ficou amargo, não bastou para que cuidados com a vida fossem tomados. Ela, mais uma vez, sucumbiu ao lucro.

Somos sete pessoas. Gente militante e que insiste em manter a esperança. Alguns insanos que não temeram a poeira e a lama para ver de perto os rastros do crime, que vêm chegando de mansinho pelo leito do rio. Neste grupo peculiar e cheio de vontade, uma pessoa me chamou a atenção. Filho do Rio São Francisco, Clarindo Pereira dos Santos acompanha a peregrinação como alguém que sabe os efeitos do rompimento para além dos muitos quilômetros de onde ele ocorreu. O pescador vive do Velho Chico e acompanha o Paraopeba com olhos de angústia. O pensamento parece estar no seu Buritizeiro.

À beira do Paraopeba, Clarindo recolhe água do rio perto da instalação da membrana de contenção da Vale, em Pará de Minas.

Por vários momentos o observei. Numa mistura de contemplação às águas sagradas e pranto de quem sabe enxergar para além do que vê, o trabalhador observa os pontos visitados, colhe água em garrafinhas plásticas e alterna longos momentos de silêncio com falas de revolta. É cético diante das ações prometidas pela empresa criminosa. Para ele, nenhuma rede ou barragem vai impedir que o cheiro da morte chegue até seu chão, onde pesca em cumplicidade com a natureza.

A lama, de fato, não é tão visível nos pontos mais distantes. Mas os moradores das várias cidades são unânimes em dizer que o risco já chegou. Entre a angústia do acompanhamento de resgate, várias cidades têm seus moradores tentando se mobilizar. São como formigas que procuram unir-se diante de um dragão impiedoso.

Não há quem acredite nas coletivas da Vale. De tanta gente ouvida, só desconfiança. O clima do medo impera, porque há dúvida no corre e corre de grandes carros de empresas que nem sempre são identificáveis. A sensação de uma operação para abafar tudo é latente. Não há como não sentir, também, a tomada de impotência.

São todos elementos que vão construindo esse caminhar, entre paradas de conversas dolorosas e planos de luta denunciatória. Mas tudo – tudo mesmo – às vezes entala na garganta como o caroço de um abacate. Precisa ser engolido sofrivelmente, antes que sufoque. O ouvido vai sedimentando lama também. Porque os relatos são todos permeados de nuances impensáveis.

É o lamento pesqueiro, a mobilização dos militantes revoltados, o burburinho da família que vai ver o Rio como quem teme enxergar um velório ou a ira de um ambientalista cansado de gritar sozinho. É também o testemunho do pai de uma bombeira, que sequer teve coragem de ver o estado que sua filha chegou. Uma, dentre tantas e tantos heróis e heroínas, que se enlameia para buscar faíscas de esperança.

Crianças do Acampamento Pátria Livre, do MST, em São Joaquim de Bicas.

E é ela mesma – a esperança – que parece ir fugindo quando o cansaço físico e mental ajuda a aflorar emoções. Algo agravado pela fala surpreendente de Teodomiro, o valente morador de uma comunidade rural próxima à Cachoeira do Choro, em Curvelo. No auge da sabedoria de sua vida quase octogenária, o aposentado foi firme: “A culpa disso tudo é de nós homens; da nossa gana por dinheiro”.

De fato, somos todos partícipes dessa roda de lucro e consumo. Conscientes de que o poder da grande agente desse crime flagrante não pode jamais ser esquecido. Mas não deixa de latejar que, sem uma luta por mudança em nosso modelo de vida, vamos ser cada vez mais engolidos por lamas de ganância.

Qual vida que vale a pena ser vivida?

Peregrinar pelo caminho da lama

A “Peregrinação Paraopeba/ São Francisco: rastros de um crime” percorreu o rio Paraopeba ao São Francisco nos dias que se seguiram ao crime da Vale em Brumadinho, conversando com a população ribeirinha para compreender o impacto do crime nas comunidades. Entre os dias 31 de janeiro a 4 de fevereiro, a ação foi realizada por agentes da Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais, da Comissão Pastoral da Terra, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras do Brasil e do Conselho Pastoral dos Pescadores. Saiba AQUI mais sobre a Peregrinação.

Por: Vinícius Borges, comunicador popular da Peregrinação Paraopeba/ São Francisco: rastros de um crime.

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