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Ninguém vai silenciar a minha voz

Mais uma manhã de luta em Mariana, 03 de junho, dessa vez a marcha conta com 120 atingidos e atingidas, que seguem em direção ao escritório da Fundação Renova no bairro Colina de São Pedro. Nas palavras destas pessoas o peso de três anos e meio de resistência, a carga deixada pelo crime da Samarco, Vale e BHP, crime que se renova nas garras da fundação que deveria reparar os danos causados.

Simone Silva, mulher preta, de alto de morro do município de Barra Longa tem a palavra. Ela não precisa pedir atenção, sua garra e liderança se fazem presentes na escuta atenta dos atingidos. São falas preciosas, que dão a ver a dor e a peleja do povo atingido, que busca, por todos os meios possíveis, o reconhecimento dos seus direitos. Sentado, um homem branco, funcionário da Fundação Renova, interrompe a fala de Simone, ela não permite, segue com a palavra, então o homem grita: “Cala a sua boca!”, ele diz, como quem tem qualquer autoridade, como quem, do alto de seus privilégios, se sente confortável em mandar uma mulher se calar.

No ato, Simone reage, sem titubear, sem piscar. Com um tapa estrondoso na mesa ela brada: “Homem nenhum me manda calar a boca! Nunca, ninguém vai silenciar a minha voz”. Ela segue “Eu estava quieta no morro, calada, não mexia com ninguém. Quem mandou a lama passar lá? Eu fui silenciada a minha vida toda, não é você quem vai me calar. Eu sou preta sim, tenho sangue de negro sim, mas nunca maltratei vocês e, para eu ter direito de falar hoje, muitas mulheres negras tiveram que morrer!”

Simone não se deixa intimidar, ela continua: “Eu não tenho o canudo [diploma] que vocês têm, não tive a oportunidade de estudo que vocês tiveram, mas eu tô cursando o sétimo período do que é ser atingida pela Samarco, Vale, BHP e Renova. Os meus companheiros que estão aqui podem até não entender o que vocês dizem, mas eu entendo tudo que vocês falam. Não aceito que você me mande calar a boca, nunca mais você manda eu calar a minha boca, nunca mais você manda mulher nenhuma calar a boca!”

O volume aumenta, atingidos exclamam palavras de revolta, defendem a companheira de luta. Outra negra, mulher de fibra, advogada popular, Verônica reivindica a devida retratação, mas o moço, insensível, se desculpou com seus iguais, duas mulheres e seis homens brancos, todos funcionários da Renova. É a eles que o silenciador direcionou suas desculpas.  Perplexos com o absurdo, os atingidos e os assessores técnicos presentes não acreditam no que os ouvidos escutaram.

Diante de rostos incrédulos, o moço diz: “Eu sou um ser humano também! Tive um lapso devido ao ambiente”, depois de tentar justificar o injustificável, ele pede desculpas à Simone e aos demais atingidos. “Eu não aceito as suas desculpas, um papel depois de amaçado nunca mais volta ao normal”, responde Simone.

Depois de transformar a reunião em um caos, os próprios funcionários da fundação dizem não haver mais “ambiente” para continuar a conversa com os atingidos e atingidas e, por isso, iriam embora. Mais uma vez Simone usa a palavra: “Vocês vão embora, em casa vocês vão ver os seus filhos, eles têm saúde e estão bem. Vocês não sabem o que é sair de casa e abraçar um filho sem saber se vai ser o ultimo abraço”.

A primeira a demonstrar indícios de contaminação por metais pesados foi a pequena Sofia, a filha caçula de Simone Silva, exame feito, contaminação comprovada. O pesadelo não tem fim, seu filho adolescente, Davidy, também está contaminado, mais tarde a própria Simone e o marido. Uma família inteira que vive, na pele, as consequências do crime. Ao todo, 11 famílias possuem exames que apresentam intoxicação por metais pesados e, ainda assim, não receberam sequer o auxílio emergencial. Esse é um, dos 19 pontos de reivindicação apresentados à Fundação Renova.

Sem resposta efetiva, atingidos de Barra Longa, Mariana e Acaiaca decidiram permanecer no escritório. Entre as principais reivindicações, estão os atrasos nos reassentamentos e a situação dos garimpeiros e pescadores, que perderam seu meio de trabalho e ainda não tiveram reconhecido o direito ao auxílio emergencial. Os atingidos e atingidas exigem ainda o reconhecimento do município de Acaiaca como atingido; a retirada de todas as famílias das casas que estão em situação de risco em Barra Longa e; a liberação de recurso e reconhecimento da matriz de danos construída pelos atingidos e assessoria técnica em Mariana.

CONHEÇA AS PAUTAS DOS ATINGIDOS

À Fundação Renova

Maio de 2019

Reivindicações dos Atingidos de Mariana, Acaiaca e Barra Longa

1- Aceite por parte da Fundação Renova da proposta de compensação e conversão proposta pelos atingidos e pela assessoria técnica para o reassentamento familiar em Mariana.
2- Agilidade no reassentamento familiar de todas as famílias que já indicaram terreno de interesse, em Mariana.
3- Liberação de recurso e reconhecimento da matriz de danos construída pelos atingidos e assessoria técnica em Mariana.
4-Agilidade na construção dos reassentamentos coletivos, com cumprimento do prazo estipulado pela justiça em Mariana.
5- Agilidade na apresentação de proposta indenizatória para os atingidos que assim desejarem.
6- Reconhecimento de Acaiaca como município atingido.
7- Reunião com presença da Renova em Acaiaca para debater sobre os danos nas moradias e nas vias do município.
8- Reunião com presença da Renova em Acaiaca para debater sobre a perda de renda sofrida pelos moradores do município após o rompimento de Fundão.
9-Reunião com presença da Renova para esclarecer o que é e como funciona a simulação de vibração e quais as suas consequências em Acaiaca e Barra Longa.
10- Retirada de todas as famílias das casas em situação de risco, em Barra Longa, de acordo com lista atualizada apresentada pela comissão de atingidos.
11-Pagamento de equipe de confiança dos atingidos, para o acompanhamento destes na reforma de suas casas, em Barra Longa.
12- Presença da Renova em reunião com garimpeiros e pescadores em Barra Longa para trazer respostas sobre a continuidade do processo de cadastramento dos mesmos.
13- Reconhecimento de garimpeiros e pescadores, com pagamento de auxílio financeiro emergencial.
14- Reconhecimento das 11 famílias com exames que apresentam intoxicação por metais tóxicos, com pagamento de auxílio financeiro emergencial, em Barra Longa.
15- Garantia de fornecimento de água mineral para as 11 famílias acima referidas, sem atrasos, com a compra da água em Barra Longa.
16- Pagamento de 20 mil reais como antecipação de indenização para quem sofreu deslocamento físico, em Barra Longa. 
17- Reconhecimento e pagamento de auxílio financeiro para os/as atingidos/as que pleitearam e até hoje não foram reconhecidos, em Mariana, Barra Longa e Acaiaca.
18- Direito à realização de exames para detecção de metais tóxicos no sangue para todos que assim desejarem em Mariana e Barra Longa, sem custos para o atingido e em laboratório de sua confiança.
19- Fornecimento de silagem e de tratamento de saúde para os animais de todos os atingidos que estão em condições diferentes de produção agropecuária em relação a que tinham antes do rompimento da barragem de Fundão, em qualidade e quantidade suficientes para todos os animais que a família possuir.

Por Ellen Barros, comunicadora popular da Cáritas Regional Minas Gerais em Mariana

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